Para especialistas, fase escolar requer apoio emocional, mas também independência para que alunos possam começar a se responsabilizar por pequenas tarefas da rotina

Amanda Pinheiro Wentz, cinco anos, já não podia mais dormir direito, tamanha era a ansiedade diante da nova etapa de sua vida: o Ensino Fundamental. Para ela, a "Escola de Gente Grande". Faltavam ainda cinco dias — ela contava nos dedos — para ingressar em um universo que lhe é praticamente desconhecido, mas do qual não sente um pingo de medo.

— A nova escola é muuuito, muuuuito grande. Tem elevador e tem escada. Vai ser muito legal — projetava a pequena porto-alegrense, entre os materiais escolares que manuseava, paparicava e guardava novamente, mais de uma vez ao dia.

Amanda está acostumada com uma escola que tem em média 150 alunos por ano. E está indo para outra que tem mais de 900 — muuuito, muuuuuito grande. Diante da expectativa, quem também perdeu o sono foi a mãe, Letícia Pinheiro. Ainda que a família tenha se preparado para a nova fase, visitado a escola, conversado com a orientadora pedagógica e planejado uma rotina, a empresária preocupa-se com o período de adaptação que está no horizonte da filha única.

— Ela vai chegar na escola e logo se sentir em casa, isso não é problema. O maior obstáculo será ter uma rotina mais regrada, ter de se sentar à classe, prestar atenção e ser organizada. Isso vai ser um desafio para ela, porque na escolinha tinha mais brincadeiras no pátio, o clima era mais solto — prospecta a mãe.

Foram sete visitas a escolas de Porto Alegre até que Letícia e o marido, o engenheiro Jorge Wentz, se decidissem pelo Colégio La Salle Dores. Segundo o casal, a escolha foi motivada pela proposta pedagógica — que, segundo a escola, tem como foco projetos inovadores e vivências, baseados nos pilares da cultura lassalista. Para que a nova fase não seja de mudanças radicais, Amanda continuará indo, pela tarde, à Escola Infantil Girafinha Travessa — que já é uma segunda casa para a menina.

— Decidimos que ela continuaria na escolinha no período inverso para que não tivesse um impacto tão grande nesta fase de transição, de adaptação à escola nova e aos colegas novos. Será como um porto seguro. Ela também irá almoçar lá — justifica o pai.

Cartazes e diálogo

Para dar conta dos novos compromissos diários, Amanda ganhou um despertador. Fala dele com propriedade de gente grande:

— Vou ter que acordar muito cedo agora.

Quando questionada se já reconhece os números, para fazer bom uso do objeto, a garota não titubeia.

— No Jardim B, a gente aprendeu a ler um pouco. E sobre os números também. Eu sou boa em matemática. Quer ver? Quatro mais quatro dá oito. Quem não faz o tema de casa roda. Minha mãe que me contou! — emenda, quase sem fôlego.

Na última quarta-feira, o despertador de Amanda tocou pela primeira vez. Ela vestiu o uniforme novo e, apreensiva, até se esqueceu de pegar emprestado o batom da mãe, como faz sempre. Colocou a mochila cor-de-rosa nas costas e foi matar a ansiedade. Já tinha em mente a primeira coisa que faria quando chegasse à escola:

— Quero sair correndo para a minha sala, abrir a mochila e colocar todo o material em cima da minha mesa.

Até que o pai a lembrou:

— Talvez você tenha que primeiro perguntar para alguma tia onde, afinal, fica a sala, né?

— É mesmo... — respondeu a menina, refazendo os planos e acrescentando outros tantos.

Uma fase de adaptação e autonomia

Acostumados a correr de um lado para outro, brincar no pátio com coleguinhas e poucas vezes se sentar à mesa para atividades mais sérias, as crianças enfrentam uma reviravolta na rotina escolar quando ingressam no Ensino Fundamental. É hora de aprender a fazer silêncio, carregar um mochila com mais materiais do que brinquedos, usar uniforme e, não raramente, encarar um ambiente novo, com caminhos novos, adultos novos, conteúdos novos...

Tanta novidade exige, mais do que nunca, uma atenção especial dos pais — principalmente para a organização emocional dos filhos. Nesta fase, os especialistas são unânimes, os aspectos cognitivos (relativos ao conhecimento) vêm em segundo lugar. O foco está na vivência.

— No primeiro ano, a alfabetização vai ocorrer de forma contextual e gradativa. É sobretudo importante preparar a criança para o novo processo, para os anos seguintes. É preciso que tanto a escola quanto os pais apresentem o colégio como um lugar interessante, onde vão aprender e fazer novos amigos. Se não conseguirem trabalhar essa questão, a parte pedagógica será afetada mais tarde — avalia Denise Arina Francisco, professora do curso de Pedagogia da Universidade Feevale e orientadora educacional na rede municipal de ensino.

Em outras palavras, como define a psicóloga Daniela Dal-Bó Noschang, é a hora do apoio emocional: pais e professores, em um trabalho conjunto, devem preparar os mais novos estudantes para as pequenas coisas — nem tão simples para a idade deles.

— O maior desafio nesta fase está ligado à autonomia. A tendência até então era de se fazer tudo por eles: colocar as coisas na mochila, carregar a mochila, evitar as escadas. Só que agora a criança precisa começar a se gerenciar, estar pronta para se apoderar daquilo que precisa ser delas. E os pais, claro, podem orientar, auxiliar, mas também dar espaço — afirma Daniela.

As maneiras de ensinar os pequenos passos rumo à independência podem ser lúdicas. Uma delas, sugerida pela pedagoga Luciana Facchini, especialista em Educação Infantil, é criar um cartaz com fotos que lembrem tudo aquilo que precisa estar na mochila ou dentro do estojo, e fazer com que a criança confira, no dia anterior, se está tudo organizado. Para ela, no entanto, a dica fundamental é marcar esse período de transição com muita conversa.

— É necessário que digam às crianças que as mudanças também são benéficas e que terão aquisições intelectuais importantes, mas que isso não se dá em um passe de mágica. Elas precisam saber que os professores terão de dividir sua atenção com mais alunos, e que ler e escrever fazem parte de uma construção diária, mais fácil para alguns, mais difícil para outros — sugere Luciana.

4 dicas para os pais

1) A criança entra nesta nova fase cheia de expectativas. E é comum que tenha uma recaída, que sinta falta da escola antiga, dos coleguinhas de sempre. Por isso, os pais devem estar sempre presentes, estimulando o filho para a novidade, mostrando que a escola é um ambiente legal. É importante ficar em contato com professores e orientadores pedagógicos.

2) O período é de ruptura, mas é possível fazer com que o impacto seja amenizado. Uma das maneiras é possibilitar que a criança cultive as amizades que construiu anteriormente, no outro ambiente de ensino. E também incentivar as novas relações, conquistadas neste processo de transição.

3) A autonomia é palavra-chave a partir de agora. É importante que os pais estejam sempre presentes e saibam orientar as crianças, mas que também deixem espaço para que comecem a se apoderar de pequenos gestos de independência, como levar a própria mochila ou organizar os materiais (claro que uma rápida conferência dos pais é sempre bem-vinda).

4) Colocar o filho na escola não significa delegar todas as funções educativas para os professores. Pelo contrário: é fundamental que, em casa, os pais reforcem o conhecimento, acompanhem as tarefas e mostrem que estudar é legal. A busca pelo conhecimento pode se tornar mais fácil e prazerosa quando envolve toda a família.

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